October 2009
O ano de 2009 vai ficar tristemente marcado para mim como o ano do suicídio. Nunca esse caminho para a morte esteve tão presente na minha vida como em 2009.
Esse assunto, apesar de doído, não é um tabu para mim. Venho de uma família (pelo lado paterno) com um histórico surreal de depressão - fardo esse que me foi legado, bem como ao meu pai e ao meu irmão. Mas eu não tenho nem um pouco de problemas em falar nisso. Depressão é uma doença, e assim como quem tem hipertensão, precisa de tratamento constante. Por conta de todo esse histórico cresci com a dor de não ter conhecido minha avó paterna - que se suicidou quando meu pai tinha apenas 11 anos. De herança ela deixou 18 filhos, muitos deles com a mesma doença psiquiátrica, sendo que dois deles seguiram seus passos e se suicidaram (em épocas distintas) e um deles já tentou 3 vezes, sem sucesso, seguir por esse caminho.
Esse é o triste histórico familiar que carrego e diante do qual, tenho noção que não posso brincar com a doença, e que ela pode ter consequências seríssimas e acabar me levando por um caminho sem volta. Remédios e terapia estão aí pra isso e ter depressão não é vergonha nenhuma.
Voltando ao começo, no ano de 2009, essa opção de colocar fim à própria vida nunca se mostrou tão cruelmente para mim. Perdi uma amiga de infância, muito querida, e com quem vivi momentos preciosos, que decidiu se matar na Páscoa. No outro feriado cristão, 3 dias depois de estar em Salvador com a minha família paterna, para comemorar os 60 anos do meu pai, logo que chegamos do aeroporto, recebemos a ligação de um dos meus tios para me informar que a minha tia Dinalva tinha se suicidado de madrugada - pra quem esteve no casamento, ela era a minha tia ‘doidinha’ que não parava de dançar um só minuto…
No Twitter, todos viram de perto o que aconteceu com uma pessoa de renome e influência na blogosfera/twittosfera - e que a família prefere esconder o fato, ao invés de enfrentá-lo (coisa que já devia ter sido feita, antes de se chegar a esse ponto). Além disso, o professor da minha cunhada se matou. E todos esses quatro casos, que bem ou mal estiveram próximos da minha convivência, não apresentaram nenhum motivo aparente antes.
As pessoas às vezes parecem felizes, satisfeitas e por dentro estão um verdadeiro caco. E é muito difícil pra uma pessoa que se sente no fundo do poço, abordar essa sua perspectiva. Muitas vestem uma capa de ativas e felizes, outras se fecham ainda mais, porque tem receio de ouvir que estão fazendo ceninha, que querem confete e coisas do gênero que eu sei muito bem que as pessoas gostam de falar quando alguém está se sentindo pra baixo. Alguns que chegam a mencionar o fato de pensarem a se matar, chegam a ouvir coisas como “ah, você não tem coragem de fazer isso!” - as pessoas não percebem que, com atitudes como essas, podem estar selando o destino de alguém. Às vezes, a única coisa que a pessoa quer é ouvir uma palavra de carinho, sentir que alguém se importa com ela…
E é triste pensar que num mundo cada vez mais egoísta e individualista como o nosso, essa tendência ao suicídio só tende a se agravar. É preciso estar de olho muito aberto, porque depois que acontece a gente começa a prestar a atenção, ligar os pontos e ver que a pessoa deu vários indícios daquilo que estava prestes a fazer.
Acho que cabe a cada um de nós ter sentimentos, e não ter vergonha de mostrá-los - seja para rir, amar, sofrer. A gente tem momentos e é preciso passar por cada um deles - pro bem ou pro mal. Até porque, ninguém é feliz 100% do tempo. Vamos dar vazão àquilo que sentimos, sem temer o julgamento dos outros… E nas horas de aperto, se cercar de amigos queridos, de familiares, de gente que te ama de verdade, e pensar que Suicide Solution nunca é solution pra ninguém: nem pra quem vai, muito menos pra quem fica.